Na lição 1 refletimos sobre quem é o verdadeiro estudante da filosofia. Na lição 2, sobre o quê é estudar filosofia e destacamos três itens básicos que significa não estudar filosofia. Agora, na lição 3 refletiremos um pouco sobre o como estudar filosofia. O “como” estudar nada mais é do que seu método. Estudar o direito não é o mesmo que estudar filosoficamente o direito; E isso vale para todas as áreas do conhecimento. Existe o estudo da matemática, mas há uma filosofia da matemática; existe gramática e linguagem, mas há uma filosofia da linguagem. Todo objeto pode ser estudado apenas sobre um ponto de vista mais analítico, material e científico, mas pode também ser objeto de uma reflexão mais ampla e profunda, a reflexão filosófica.
Mas o quê exatamente marca essa transição de um para o outro? Qual é a linha divisória que delimita o terreno da matemática pura e a filosofia da matemática; a do direito e a da filosofia do direito? Essa linha divisória consiste no aspecto de atenção do estudante. Quando se quer apenas entender como as coisas mais ou menos funcionam, temos aí o conhecimento das ciências. Como diz Richard Weaver “o novo homem não quer entender o mundo, mas apenas saber como ele funciona”1. Por outro lado, quando nossa atenção se volta para entender o princípio primeiro e a essência daquilo que estuda, então estamos pretensamente no terreno filosófico. O primeiro é apenas uma espécie de conhecimento descritivo do mecanismo de funcionamento visível. O segundo busca o conhecimento do invisível, dos aspectos mais essenciais, que somente podem ser vistos pelo intelecto humano.
Se observarmos com a atenção a realidade que nos circunda, constataremos, com Aristóteles2, que há essências (coisas/substâncias) e dados acidentais. Existe o ser humano, enquanto essência e existem dados acidentais relacionados a ele como cor, posição, estado, ação. Esses dados acidentais, o filósofo consegue esgotá-lo em nove categorias, a saber:
- substância (οὐσία, ousia, substantia),
- quantidade (ποσόν, posón, quantitas),
- qualidade (ποιόν, poión, qualitas),
- relação (πρός τι, relatio),
- lugar (ποῦ, ubi),
- tempo (ποτέ, quando),
- estado (κεῖσθαι, situs),
- hábito (ἔχειν, habere),
A reflexão filosófica precipuamente está interessada na substância, isto é, em compreender a essência do objeto ao qual se reflete. O conhecimento científico, e outros tipos de conhecimento, por sua vez, não estão tão interessados nisso, mas sim em entender como a coisa funciona. Portanto, estão interessados nos dados acidentais. Por exemplo, o conhecimento científico procura entender como se formam as chuvas ou o clima. A reflexão filosófica busca entender o porquê de isso existir, e em que se constitui a sua essência. E assim por diante.
Um mero estudante do direito, e aqui refiro-me ao bom estudante, se limita a tentar entender como funciona o sistema de justiça, de leis, quais os mecanismos e instrumentos disponíveis para navegar nessas águas. Já para o filósofo do direito, existem certas perguntas martelando intermitentemente em sua cabeça: o que é o direito? o que é a justiça? o que sustenta a autoridade de um sistema jurídico? etc. E veja bem. Essas perguntas não decorrem de meras curiosidades ou vaidades, com vistas a demonstrar erudição perante os outros. Não, essas perguntas são cruciais para ele, porque se elas não forem minimamente respondidas todo o resto do sistema parece não fazer sentido. Algo está faltando. Então o filósofo vai fundo, porque, com sinceridade absoluta, quer construir o restante de sua teia de conhecimento em cima de uma fundação sólida e firme.
Certo.
Mas que traços podemos definir para concluirmos que o filósofo está realmente fazendo isso e não outra coisa, ou seja, está realmente buscando a essência e não outras finalidades?
Bom, se quiséssemos descrever um método de consertar sapatos, poderíamos simplesmente observar com acuidade os trabalho dos sapateiros, analisando com calma aspectos fundamentais do que realmente eles estão fazendo. Nesse sentido, procedo ao meu intento, de demonstrar o método filosófico. A partir da observação de como agem verdadeiros filósofos, quando estão exercendo essa atividade, é possível traçar ao menos quatro características fundamentais, que, uma vez presentes no estudo, se constituem em verdadeiro método.
1º Revisitação de suas ideias.
Um filósofo genuíno, quando no exercício da verdadeira filosofia, revisita suas ideias acerca do objeto estudado. Tenta rastrear as suas origens e verificar se há algo que confira fundação segura a elas. Por isso, um filósofo deve, antes de tudo, atender ao velho oráculo de Delfos que enunciava: “conhece-te a ti mesmo”.
Como ensinava o saudoso professor Olavo de Carvalho, “o filósofo rastreia a origem das suas crenças e assume a responsabilidade por elas”3.
É o que se chama fase da anamnese, onde o filósofo deve aprofundar o conhecimento de si mesmo, e compreender com mais clareza as premissas de onde está partindo. Lembremos que nosso estudante ideal não é qualquer um. Alguém que sente aquela inquietação verdadeira, claramente quer conhecer-se melhor e saber de onde está partindo para compreender o objeto de sua reflexão.
2º A ouvida dos sábios.
Um verdadeiro filósofo não está interessado em reinventar a roda. Também não está interessado em simplesmente criar novas “teorias”, correntes e sistemas filosóficos, no intuito de fazer-se o gostosão intelectual. Não. Não é isso que sinceramente o move. Portanto, o segundo ponto é procurar saber, com humildade, o que outros grandes estudiosos já falaram sobre aquele objeto.
Ouvir o que a tradição filosófica já tratou sobre o objeto de estudo, é item básico do método filosófico. Os grandes filósofos faziam exatamente isso. Ao ler as sumas de Santo Tomás de Aquino, as obras de Aristóteles, ou mesmo os diálogos platônicos, verifica-se com muita clareza que tais autores detinham um domínio da opinião dos sábios existente antes deles.
Como lembra Olavo de Carvalho, “O primeiro a enfatizar esse requisito dos estudos superiores foi Aristóteles, que iniciava sistematicamente as suas investigações por uma revisão das ‘opiniões dos sábios’ sobre o tema em questão.“4 Realmente, não faz o menor sentido eu querer entrar em uma conversa sem antes procurar saber do que estão falando. Simplesmente emitir opiniões no ar, qualquer um pode, mas ouvir com sincera humildade como outros trataram o assunto antes de mim, eis um item básico do método filosófico.
3º Dialética com os sábios.
Uma vez que ouvi os sábios, com humildade, é preciso começar uma relação com eles. Mas que tipo de relação? Um relação puramente “crítica”? uma relação puramente subalterna para ficar louvando e endeusando aquele pensador? Não. Essa relação tem que ser uma relação dialética.
O que chamo de relação dialética é, nada mais nada menos que aquela relação estabelecida entre Sócrates e seus interlocutores nos famosos diálogos platônicos. Por exemplo, na República, Sócrates não quer apenas vencer ou fazer pouco caso de Trasímaco, ou mesmo do jovem Polemarco. Ele quer penetrar as bases da ideia deles para saber se elas conseguem se firmar por elas mesmas. É por isso que Sócrates, em sua dialética, apela muitas vezes ao testemunho do seu próprio interlocutor. Na relação dialética, não se quer, de antemão, chegar-se a uma conclusão, mas quer avançar de degrau em degrau, ainda que o resultado final seja ainda incerto.
Mas como traçar essa relação com Kant ou tantos outros, se eles já morreram e o que tenho são apenas seus escritos? Pois bem. O eixo conector que permite essa relação dialética, constitui justamente o quarto passo do nosso método filosófico: o ser.
4º Sensibilidade com o referente.
Um físico, um matemático, um médico, um engenheiro etc. pode ter um QI bastante elevado, raciocínio rápido e aguçado; pode resolver problemas técnicos difíceis, mas poderá, ainda assim, continuar anestesiado e alheio em relação ao ser. A pessoa dominou uma técnica de como fazer ou descobrir isso ou aquilo; descobriu as relações existentes; mas em nenhum momento sente fazendo-se as perguntas fundamentais e tentando, através dos caminhos acima, respondê-las. O que falta ao este cidadão? Falta-lhe a verdadeira sensibilidade ao ser.
Um estudante de filosofia não está interessado em mero jogo de palavras. Quer incansavelmente a verdade. Logo, em tudo que lê ou ouve? Sente dentro de si a pergunta fundamental, quid est?, o quê é isso? do quê ele está falando? Portanto, o pretenso filósofo tem que fazer um esforço contínuo, para não ser abstraído em esquemas mentais e sistemas que o tirem do verdadeiro senso de realidade.
Interessante, porque muitas pessoas comuns têm uma visão justamente contrária acerca da filosofia. Dizem, com frequência: o filósofo vive no mundo da fantasia, vive fora do mundo real; é um louco; o que importa é o pragmatismo. Nada mais falso. De fato, muitos que vestem a roupagem externa de “filósofo”, mas que em essência não o são, possuem características semelhantes. Porém, o verdadeiramente interessado na filosofia perene, não caminha por esta via. O filósofo não quer viver como alienado autômato que, não sabe de onde veio, para onde vai, nem que forças e ideias existem enquanto ainda está nesse mundo. O filósofo quer uma vida consciente ao máximo possível. Por isso, busca constantemente o ser das coisas, aquela experiência tão belamente descrita por Louis Lavelle, na Presença Total5.
Em resumo, aprender o ser de uma coisa, é aprender a sua perfeição própria, que não difere da perfeição do todo de que faz parte. E por consequência esta noção da existência, que é na aparência a mais exígua de todas, exprime ao mesmo tempo o último ponto que pode atingir o enriquecimento de uma noção qualquer, assim que deixa de ser abstrata. No ponto ao qual se acabou de chegar, a existência não é mais uma coisa, retoma a identidade como ato infinitamente fecundo com o qual se tinha identificado antes de a análise ter posto ao nosso alcance a diversidade dos aspectos do mundo. Porém somente a um ato que se pode pedir que apresente essa unidade de uma indivisível acuidade no interior da qual é necessário tornar mais íntima a infinidade das determinações pelas quais, em cada instante, atualizamos, sob a forma de dum dado particular e limitado, as diferentes etapas da nossa vida participada“.A presença total, p. 51.
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