1. O estudante ideal de filosofia do direito.

Embora o estudo da filosofia, em potência, seja acessível a todos; em ato, não o é. O espírito filosófico, de regra, pressupõe uma inquietação, um espanto, como dizia Aristóteles. É esse espanto, essa inquietação com o discurso corrente, que faz brotar no interior da pessoa o desejo de descobrir ou sondar o princípio primeiro, o real significado, a unidade, a verdade daquilo que correntemente se fala. Nos diálogos platônicos, Sócrates, o pai da filosofia, nada mais faz do isso, i.e., depurar o que está sendo dito, inclusive com o testemunho vivo do seu próprio interlocutor.

Na vida social, é fato que um percentual mínimo sabe a que inquietação me refiro; e mesmo dentre estes, só um número menor ainda seguirá adiante, para investigar tal fenômeno.

Portanto, observando os estudantes sob este aspecto, temos dois grupos: aqueles que seguem a cultura corrente (não sentem a inquietação) e aqueles que querem tentar transcendê-la (sentem a inquietação). Os primeiros são autômatos, vivem meio que no automático e não fazem questão de compreender nada de modo mais profundo; querem apenas encontrar seu lugar ao sol e se amoldarem dentro do arranjo social da melhor maneira possível. Um estudante  que pertença a esse grupo quer, digamos assim, tirar sua nota boa, obter seu diploma, encontrar um bom trabalho (privado ou público), ter sua renda, curtir a vida e viver “em paz”. Se surgem questões mais profundas acerca das coisas de que estuda, ou da realidade que o circunda, normalmente o trato delas será sempre desdenhoso, e inevitavelmente serão varridas para baixo do tapete, sob o velho argumento do pragmatismo. No máximo, pode ser que até resulte em um “textão” de rede social de momento, mas nada mais do que isso.

No outro grupo temos aqueles que querem mais ou menos transcender o seu meio, isto é, querem olhar sua realidade como um todo de um ponto de vista mais acurado. Entretanto, temos aqui aqueles que assim o querem apenas em aparência, para gozar de uma certa posição social de prestígio, e aqueles que o querem de fato, independente de qualquer benefício social. Os que querem em aparência, se contentam com o que chamamos de cultura filosófica, com um arcabouço de conteúdo decorrente de suas leituras. Por isso, esse estudante até busca o conhecimento acerca do pensamento dos mais variados autores e filósofos, e sabe expor, muitas vezes com maestria, seus sistemas de pensamentos. É o que Miguel Reale chama de expositor de filosofias. Em geral esses estudantes têm aquela voz meio empostada, por vezes meio engomadinho, mas ainda estão sempre muito preso à cultura corrente. Por isso digo que o interesse é só aparente. O que ele quer é usar a cultura filosófica apenas para se projetar dentro da sociedade. No fim das contas, o que ele quer se satisfaz com fama, dinheiro e, às vezes, poder. Repito, ele não quer transcender de fato a sua cultura, mas apenas usar seu arcabouço cultural para alcançar melhores posições na sociedade em que vive.

Por outro lado, os que querem transcender de fato, precisam da cultura filosófica, mas não se contentam com ela; almejam sobretudo a atitude filosófica, como bem diferencia o professor Olavo de Carvalho em suas primeiras aulas do Curso Online de Filosofia. Esta consiste não só em aprender o que os grandes pensadores falaram, mas em aprender a fazer o que eles faziam. Eles querem, como diz Mortmer Adler, entrar na grande conversação. Não querem apenas saber expor o que Aristóteles falou, mas querem saber “conversar” com ele. Refletir se o que ele disse é verdade ou não, se tem sentido ou não. Para estes estudantes, não basta saber o que Kant escreveu, mas se Kant falou besteira ou não, não importando a sua fama. Todavia, para fazer isso, a pessoa que assim almeja, sabe que não pode fazer apenas como um menino irrequieto, mas deve antes calar, escutar, esmiuçar o que o pensador falou (fonte primária); se possível, ver o que outros estudiosos falaram dele (fonte secundária); meditar, refletir, anotar etc, tudo isso durante certo tempo (uma fase de hibernação); então, depois disso, pode iniciar a conversa com eles e, quem sabe, a partir dessa experiência, começar a expor sua própria visão acerca da realidade que o cerca (uma fase de exposição).

Infelizmente, nos dias de hoje, pretensos “estudantes” e “críticos”, querem pular imediatamente para esta última fase, ou seja, antes de maturar bem os conceitos e as ideias, partem direto para defender suas “opiniões” e demonstrar um “pensamento crítico”, que de crítico, em verdade, não tem nada. Todas as vezes que isso acontece, não é tão difícil perceber que o “polemista” se torna presa fácil de algum discurso ideológico. Tais pessoas estão longe de serem verdadeiros estudantes da filosofia, mas apenas almejam projeção social para alguma finalidade.

Portanto, quem é o tipo ideal do estudante de filosofia e, por conseguinte, da filosofia do direito? É aquele que sente alguma inquietação ou desejo mais profundo de conhecer a realidade das coisas, busca a leitura e o estudo de quem já fez esse caminho antes dele, e depois, só depois, pensa em talvez expor suas próprias conclusões

É para essa pessoa que escreverei breves lições de filosofia do direito.


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