(Livro I, As leis – Platão)
O diálogo inicia-se com os personagens Ateniense, Clínias e Megilo. Eles discutem sobre o objetivo central das leis de Creta e de Lacedemônia, tão louvadas. Clínias e Megilo afirmam, apressadamente, que o propósito principal de suas leis é a guerra. Segundo eles, todo Estado vive, de certo modo, em permanente estado de guerra potencial. Por isso, as leis de um país são elaboradas tendo em vista situações de conflito. É o caso, por exemplo, das refeições em comum (syssitia), instituídas para que os soldados pudessem se proteger mutuamente. Assim, toda a legislação espelharia essa situação de guerra contínua em que a sociedade se encontra.
O Ateniense, contudo, chama a atenção para uma realidade mais profunda. Embora a guerra externa seja real e importante, existe uma guerra ainda maior, mais devastadora e pior: a guerra civil (a revolução). Ora, se o Estado está sempre em guerra, por ser composto de seres humanos, então uma cidade pode estar em estado permanente de conflito contra outra cidade; uma família, contra outra família; e um indivíduo, contra outro. Essa guerra interna e potencial é, entretanto, muito mais destrutiva, pois impede o próprio funcionamento do Estado.
Estabelece-se, então, um critério de prioridade: o que é mais meritório e louvável — vencer uma guerra externa ou vencer primeiro essa guerra interna? Os interlocutores são levados à conclusão intuitiva de que vencer a guerra interna, de fato, é mais fundamental e necessário. Vencer uma guerra externa somente exige a a coragem, coisas que até mercenários podem conseguir.
Entretanto, para vencer essa guerra interna, os “guerreiros“ devem nutrir todas as virtudes: justiça, prudência, sabedoria e coragem. Não se sustenta um estado, fomentando apenas a coragem e a guerra. Já para a guerra externa, exige-se apenas a coragem. O Ateniense questiona: uma legislação que visa unicamente fomentar a coragem, desprezando a sabedoria, a prudência e a justiça, estaria buscando apenas o valor mais baixo entre as virtudes? Eles respondem que sim. A coragem é importante, mas ocupa o quarto lugar na hierarquia das virtudes. Teria sentido um bom legislador limitar-se a esse objetivo? Obviamente que não.
Desse modo, os interlocutores são levados à conclusão de que uma legislação verdadeiramente boa não pode visar apenas um aspecto da virtude. O Ateniense conclui que a lei deve fomentar a virtude como um todo — sabedoria, prudência, justiça e coragem —, de modo integral e abrangente. Mesmo as leis que tratam de questões particulares, devem ter como pano de fundo, o fomento dessas virtudes.
O legislador deve visar, em primeiro lugar, aos bens divinos, isto é, às virtudes. Como consequência natural, virão também os bens humanos. Assim, o legislador atua como um orientador, reprimindo certos comportamentos e promovendo outros nas relações entre os homens — nos casamentos, nos negócios e em todas as esferas da vida social —, sempre com base nesses fundamentos de virtude.
Esse é o verdadeiro objetivo de leis que se pretendem boas e louváveis.

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