Não titubearia em apontar a dissipação mental como o mal do nosso século. Temos muitos problemas, é certo, mas, sem dúvidas, este é um dos grandes.
Trata-se da característica de se ficar divagando a mente em uma variedade de conteúdos e temas sem concentrar-se em nada, sem dedicar de fato uma atenção especial a nada. Isso ocorre pela rede social que nos manda conteúdos dos mais diversos temas, porém sem nunca nos dar uma elemento de maior reflexão e profundidade. Mesmo quando o tema é, deveras, relevante, a forma de seu tratamento é sempre superficial. O streaming também é este outro causador, pois nos coloca diante de um volume absolutamente gigantesco de conteúdo, de modo que passamos muitas vezes mais tempo rolando páginas do que propriamente assistindo algo verdadeiramente relevante. E quando finalmente assistimos, não paramos minimamente para refletir sobre. Tudo isso provoca em nós a dissipação da mente. Uma mente não focada em nada, que não se concentra em nada, que não dirige sua vontade para a resolução de algum problema, para aquisição de algum conhecimento.
Não colocar a mente nesse modo por muitos dias, retira, aos poucos, a capacidade de leituras mais profundas e longas, a capacidade da oração meditativa e contemplativa, e depois, até para tarefas simples, vamos perdendo a capacidade. Muitas pessoas já começam a apresentar dificuldade de assistir um vídeo mais longo ou um filme completo.
A mente mantém-se em modo sempre “ativo”, porém sempre cansada e incapaz; um verdadeiro paradoxo. A causa disso, já sabemos: a dopamina. Esse neurotransmissor que injetado em nossa cabeça a cada gotícula de dissipação em redes social e vídeos curtos. Falo isso não por intuição e observação, mas experiência real e própria. Desde o ano passado, deixei de vigiar e, quando dei por mim, estava consumindo grande parte do meu tempo rolando vídeos idiotas no Instagram ou youtube. Ao final do dia, encontrava-me verdadeiramente estafado, sem capacidade de outras atividades mais focadas e produtivas. No fim, percebi que minha memória estava se tornando mais fraca e, porque não dizer, a própria inteligência. Por vezes, me peguei com brancos de memórias no serviço, e entrei a ter algumas dificuldades de organizar raciocínio, o que não me pertencia há anos.
Dissipar a mente é um grande mau. Tira-nos da realidade e manda-nos para um mundo de névoa cerebral, sintoma este muito comum para quem se entrega a este estilo de vida. Cristo nos ensina que três coisas nos tornam insensíveis às coisas espirituais, a gula, a embriaguez e as preocupações com as coisas deste mundo. A dissipação nada mais é do que um tipo de embriaguez, uma embriaguez que nos deixa anestesiados para as coisas que verdadeiramente importam e nos leva a caminhar sem um horizonte claro.
Precisamos lutar contra esse mal da dissipação, e esforcemo-nos para manter nossa mente com a atividade focada. Até mesmo nosso descanso, como ensina padre Narciso Irala (Controle Cerebral e Emocional), deve ser também focado. Contemplar a natureza ao passear em um parque; banhar em um rio, cavalgar etc. Todas essas atividades não exigem de nós um foco extremo, porém não deixam a mente num estado de dissipação cansativa e desgastante. Ao contrário, um lazer bem aproveitado restaura nossa mente para uma atividade focada mais densa em um momento posterior. Por outro lado, quando se tenta descansar usando a dissipação e descarga de dopamina, o efeito é reverso, voltamos sempre mais cansados e estafados.
Na hora do trabalho e estudo, precisamos de uma mente focada, mas na hora do lazer e descanso também precisamos de uma mente focada, embora mais relaxadamente. Penso que só isso pode restaurar e manter nossa cabeça mais saudável, ativa e produtiva.